9.12.2007

O CACHORRO DA MORTA
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Rosnou alto o cachorro da morta. Era um cão com cara de louco. Ele não largava do lado do corpo. Ficava num tapetinho, pegado à cama. Depois vieram mais. Alguns cabisbaixos. Todos pouco solenes. Suas ancas roçavam o meu rosto. Pela luz difusa, as sombras cresciam incertas. Eu os via gigantes. Tinham horas que aqueles bichos, em seu vai e vem, pareciam ratos. Naquele quarto, médio silêncio. Da TV baixinho, o cara enfileirava notícias. Um de pêlos curtos, todo preto, foi o que eu mais gostei. Avançou com cara de pidão. Senti nos meus olhos, o seu focinho gelado. Veio uma pressão na barriga, era um outro que, sem esforços, me pisava desajeitado. E me lambiam cócegas, e eu permanecia imóvel. Queria escrever tudo, lembrar de tudo, mesmo com o cheiro de cão, o cheiro de gente, o cheiro da morta. Cadelas me piscavam, e eu continuava pesado, impossível afago. Eu ouvia os passos deles, suas patinhas, tec-tec-tec, e o chocar das garrafas - um barulho surdo, choco-, vasilhames partidos próximos ao guarda-roupa maior, além das outras. Alguns cães aparentavam idade. Tinha mesmo um dogue cego, andando às tontas pelo local. Eles não paravam de entrar, a porta uma fresta. Então, amortecido, alcancei um papel do bolso. Um origami. Tirei também uma caneta e passei na ponta da língua, enquanto ninguém chegava. Desfazia o adereço para poder escrever. A morta permanecia onde sempre esteve: inerte por sobre a cama. Lambidas, afagos certeiros, ratos bons!, lambem e não mordem meus pés, minhas mãos, mesmo meu focinho. Tomado de onde eu estava, o quarto aparentava ser mais amplo do que realmente era. O roupeiro, a vitrola, a cristaleira - inusual. Na parede, havia um quadro. Nele, havia cães. A pintura estava borrada. Como se um líquido viscoso a encobrisse. Os cães da parede, esses sim, latiam sem parar para mim.
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História a jato: exercício de oficina, fiz em 15 minutos. Texto a ser revisto.

5.21.2007

AS CINZAS DA MANHÃ
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Ana se coloca dentro da mancha de luz.
“Não é curioso este céu sem nuvens? A gente não sabe até aonde ele vai...Nuvens, espelhos do ar... Onde terminará o o céu? Daqui dá até pra sonhar com o seu fim...Numa manhã de ensolarado frio, é bem verdade que o céu azul, azul, esconde o cinza da gente...”
Decidida a tomar um banho de sol naquele dia, ela acende um cigarro com o pacote de pães na mão. Volta da padaria. São oito horas. Silêncios passageiros, pequenos ruídos, sintomas do recomeçar. Em qualquer parte, todo alvor traz consigo o inexorável. Um ou outro transeunte, passa um ônibus vazio, trabalham na rua dois faxineiros com coletes da prefeitura, uma nesga de sol entre o enfeixe de prédios. “Onde começa a cidade?”, se pergunta o único passageiro do ônibus que vem atrás do anterior. Era assim sempre, não foi diferente naquele alvorar. Longe, numa rua chamada Augusta, vem um carro com cinco rapazes. Diminuem a marcha. Berram para os moços da limpeza:
Isso aí, seus otário. Idiota tem que trabalhar de sábado mesmo!
Eles param o serviço. Olham para o automóvel, que agora avança vagaroso em direção à Ana. Voltam a trabalhar.
Investida pelo ar fresco, coquete total em seu shortinho de ir à padaria, encostam perto dela. Dizem:
E aí mina? Onde essa rua vai dar, hein?
(Em suas risadas, são todos um só).
Ana sorri magrela. Traga fundo, bem cheio. Pergunta:
Se quer saber onde vai dar?
(Diz de olhar vidrado.)
É, mina, diz aí... Onde essa rua vai dahr? Hein?
Ana se aproxima do carro. Num ímpeto, estende o braço para dentro. Ela bate a cinza.
Vai dar aqui, ó!
O passageiro dá um pulo, recua assustado, teme a brasa. Xingam-na. Passam recibo de sua impotência. Os faxineiros riem. Ana vai comer pão. Sobe a rua com medo. É realizada, é satisfeita, que bate a porta de casa atrás de si. As suas pernas ainda bambas.
O ANO DO JAVALI
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Todos os dias eu como. Sou um glutão refinado. Meto pela boca todo alimento que me é servido. Cada refeição é uma espécie de anunciação. Engulo salivante diferentes sabores. Entorpecido, mole, estático, em quatro palavras: refém da minha fome. Sucessivas refeições silenciam as minhas mesmas perguntas. Sinto em minhas texturas macias a diversidade das coisas. Abro as comportas de minhas mucosas. Saboreio, eventualmente, maquinalmente, fragmentos de prazer. Recorro necessário ao que me mantém de pé. Comer sem ter vontade, ou a vontade sem ter o que. A digestão começa antes ou depois da boca? Sou um glutão refinado. Toda refeição é uma espécie de anunciação. Como todos os dias. Misturo renúncias e sensações em meu letárgico vagar alimentar. Estático, mole, torpe. São múltiplas as respostas para o desejo e, no entanto, permaneço prisioneiro de minha fome. Na hora das refeições, todos os dias, silêncio perguntas. Sublimo minha falta quando sinto tudo que me sobra. Deglutir, mastigar, absorver: todo dia silêncio as perguntas de sempre em minhas refeições. Deus existe? Por que nasci javali? É papai capaz de amar um javali? E, ainda por cima, guei? Existe par para um javali além de outro javali? O que fazer com tudo isso? Passar os dias a rever Antonioni? Nada derrota minhas comportas. A cada comilança, por menos que seja, me atualizo. Vem como uma espécie de anunciação: prazeres redimidos, sofreguidão extenuada, vontades vencidas, lassidão. Mecânica contínua das mandíbulas, ou moto afoito, ou lento mastigar de mim mesmo, autofágico para quem sou, autolimpante com meu buddy, autoforno social (me refiro aos meus piores momentos), – somos mesmo uma tribo muito especial. De um tudo, insuperável é o sabor: quando ele me quebra as pernas, pipocam novas perguntas na sobremesa, recordo em meu paladar o figo azedo do habitual... Entre os intervalos de uma refeição e outra, revivo o prazer de aguardar pela próxima comida a ser herdada por mim da natureza. Oh, mãe natureza, a ti fica a última pergunta: é assim mesmo?

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